Um breve desvio de olhar sobre a história do CACS

Para se compreender a existência do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da PUC-SP (CACS) é necessário retomar suas procedências, observar os seus baixos começos, navegar pelos espaços criados e ampliar o horizonte de entrada. Não cabe naturalizar as relações do presente lançando mão de qualquer categoria essencialista, seja esta a natureza humana, a revolução universal do proletariado, o ascenso, o refluxo, o ABC do movimento estudantil, ou a verdade derradeira. Volver os olhos ao passado é observar também o momento em que surgiu.

Em um depoimento existente no acervo documental do Museu da Cultura, intitulado “Depoimentos Movimento Estudantil”, o então estudante, de meados da década de 1970, Ivan Fernandes, aponta algumas características do “efêmero” desse momento. Assim, o CACS tem por aparecimento as escadarias da PUC-SP, já que, Ciências Sociais se apresentava enquanto um curso recente e um espaço para a constituição deste centro acadêmico era ainda inexistente.

Esses estudantes fundaram através do fogo aquilo que ansiavam dar forma: tratava-se de não acatar qualquer delimitação espacial pré-existente, qualquer recorte previamente delimitado e realizar o CACS ali mesmo, nas escadarias. Esse momento acompanhara os desejos e necessidades da época, a emissão da carteirinha de passe (algo como um pré-bilhete único), as bebedeiras, as farras e a política. Em meio à ditadura militar tratava de combatê-la com afinco, o que fora realizado por inúmeras tendências de esquerda, clandestinas ou não. Quanto à bebedeira, esta possuiu impacto político importante: com a farra constituída, a PUC-SP se irrita com as “loucuras da escadaria” e só assim viabiliza a atual distribuição de centros acadêmicos que se possuí hoje, por meio de um projeto aprovado no CONSUN. Em suma, o CACS possui papel importante no próprio recorte espacial da PUC-SP.

Este centro acadêmico nasce da luta, dos diversos entraves políticos, e de certo ansiar formal que não respeitava qualquer limite pré-existente. Contudo, em meio a todo o processo de gestões, o mesmo estudante, Ivan Fernandes, aponta para algo de relevância. Nesse processo, as dimensões individuais eram sacrificadas, ascesis e conversão em nome do partido, do programa, da verdade derradeira, da revolução do proletariado universal. Anos após essa primeira experiência, a PUC-SP também observa um momento ímpar, de singularidade própria e que somente neste espaço estudantil se desenvolveu (ao menos quando se olha para o particular caso brasileiro). Trata-se da experiência autogestionária do CACS, que entraria pela via eleitoral no ano de 1982 e perduraria até o ano de 1992.

A diferença com as formas anteriores está na abertura do espaço; um jeito de lidar que não estava presente em programas, tratando da construção de assembleias a partir de interesses pontuais que quebrasse com um a priori. Adentra-se nas lutas políticas na ausência de qualquer linha dada. Um exemplo: no ano de 1986, Sarney o primeiro presidente eleito do Brasil, enquanto estado democrático, proíbe a exibição do filme Je vous salue, Marie (Eu vos saúdo, Maria) de Jean-Luc Godard. Alguns estudantes do CACS conseguiram uma cópia VHS do filme em uma versão francesa e sem legenda, exibiram o filme. O Resultado foi a entrada da Polícia Federal na PUC-SP.

Nessa ocasião, os estudantes rapidamente esconderam a fita, passando de um para o outro por debaixo de suas camisetas. Quando os policias questionaram a respeito do responsável pela exibição, apontaram um abaixo assinado com o nome todos os estudantes dos diversos cursos que “assistiam” a trechos do filme, era inexeqüível a prisão de tanta gente. Resultado final: uma batalha entre policiais e estudantes; os homens de farda tiveram que sair da universidade enquanto cadeiras eram arremessadas nestes representantes armados da legalidade. Tratava de escancarar a censura no início da reabertura democrática

Observando ocasiões, suscitando diversas manifestações de vida, a experiência autogestionária travou embates perante o Estado, a universidade e as verdades acabadas. Foram inventados outros jeitos de se lidar com o espaço; outras formas políticas. Eram happenings, performances, rádios livres e uma estética-política diferenciada. Outro exemplo destas ações se encontra na prática tornada corriqueira nos dias de hoje e conhecida como OCUPAÇÃO DE REITORIA, que ganha forma no Brasil pela primeira vez em meio a esta experimentação autogestionária.

Olhar para a história observando certas procedências é também problematizar o presente. Contudo, não cabe viver em saudosismo, substituir uma utopia futura por um lugar paradisíaco no passado, fazendo-se, assim, fita cassete embolorada – estilística típica dos que vivem pelo medo exaltando a covardia, executando a manutenção da mesmice pela incapacidade de experimentar uma oxigenação vinda de novos ares, novas cores, novas vidas; portando-se enquanto consciência representante, comissários da boa consciência para aqueles que não detêm as mesmas fantásticas características (Oh! Que bons homens).

O que entra em meio às urgências de hoje é problematizar, entre outras coisas, o que estamos fazendo do CACS, o que estamos fazendo da universidade e o que estamos fazendo de nós mesmos (para retomar Espinoza).

Problematizar o presente e inventar novos rumos

Wander Wilson chaves junior

2 opiniões sobre “Um breve desvio de olhar sobre a história do CACS”

  1. O CACS possui uma história muito bela, de lutas e manifestações. Espero que os estudantes atuais da PUC entendam esse espaço como uma via de conquistas para os cursos e os próprios alunos.

  2. Heloisa Maria de Santana disse:

    Parabéns pelo texto e aproveito tambem para parabenizá-los pelo site, sou ex-aluna de ciências sociais e diferent de vocês fizz parte de uma chapa que venceu duas eleiçoes, ou seja, fiz parte da diretoria do centro acadêmico durante os anos de 1998 e 1999, momento crucial de mudanças na PUC, noentnato devito do ativismo e postura de negociações a favor jos jovens tablhadores da universaidade, me orgulho de ter participadop de ocupações e comissões de negociação,as quais me permiram que centenas de estudantes dessem continuidade aos seus estudos.

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