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Artigo de Fábio Py, doutorando em Teologia, sobre a proposta da PUC de São Paulo de conceder o título de doutor honoris causa a Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia. Quais seriam os significados desse título ao bispo defensor da teologia da libertação e à Universidade, conhecida muitas vezes por seu conservadorismo. 

Por Fábio Py*

Chega a informação de que o bispo emérito da Prelazia do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga (1928), poderá ser condecorado mais uma vez com o título de doutor honoris causa dessa vez pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) – antes recebera a honraria da UNICAMP (em 2000) e da PUC-GO (em 2012).

Sem dúvida, é algo a ser comemorado. A indicação do título para o CÔNSUL da universidade foi da Faculdade de Teologia da PUC-SP, no qual, é o grande prêmio dado pelas universidades a pessoas podendo condecorar até os que não têm título acadêmico. Com ele, o laudeado passar a assinar ‘doutor’ ou ‘doutora’, sendo concedido á pessoas de destaque em área acadêmica, ou, em decorrência de serviços prestados à comunidade.

Gostaria de destacar que caso haja o laudeceamento do ‘Pedro do Araguaia’ há pelo menos dois vetores tendidos nas entrelinhas do ato titulatório. O primeiro vem de sua trajetória marcada pela luta dos direitos humanos, contra a ditadura, contra as forças capitalistas no campo. Intra-catolicismo suas lutas se orientam no sentido da crítica a estrutura, ao celibato sacerdotal e pela luta da maior participação das mulheres no clero. Nada disso impediu de ser admirado por figuras centrais da cúria como o Papa Paulo VI. Pontífice, no qual, nos tempos da Ditadura Militar no Brasil desafiou que se tocassem no Pedro do Araguaia estaria encostando no Papa. Lideranças da igreja quando podem, prestam homenagens ao Pedro do Araguaia, dono das honrarias pela vida pastoral aguçada pelas dores dos que pouco tem.

Entretanto também, deve-se considerar o vetor da universidade, isto é, da PUC-SP. Uma universidade que há anos constrói um histórico na sociedade brasileira no qual não se pode ser demonstrado nesse pequeno espaço. A PUC-SP onera em sua tradição: reflexão, o social, e em seus quadros teológicos agrega excelência ao fino do tecido ecumênico brasileiro.

Apesar disso, a universidade vem se recuperando de embates, lutas contra a estrutura antiga/medieval – não condizente com sua excelência. Isso por que, na questão da eleição dos cargos mais altos como a reitoria depende ainda da palavra final do bispado paulista. Não importa às primeiras colocações. Quem define suas lideranças são os grupos do bispado. Por isso, tempos atrás ocorreram protestos de estudantes contrariados com a indicação do bispo levando a ocupar por dias o campus. Os protestos ocorreram pela indicação do Arcebispo Metropolitano de São Paulo e grão-chanceler da PUC-SP, Dom Odilo Scherer (1949), de postular na reitoria uma pessoa não foi a tão bem cotada quanto os demais. Uma postura controversa no sufrágio universal do Brasil.

Sobre o governo de Dom Odilo Scherer (de ala mais fechada da igreja, com histórico de intolerância com teólogos da libertação, responsável por retiradas de padres e párocos mais progressistas) soa tão distinta a indicação da solenidade de honoris causa para um bispo como Dom Pedro Casaldáliga reconhecidamente anti-estrutural, ligado a teologia da libertação, aos movimentos sociais e camponeses. Seria uma vitória da teologia latino-americana? Um sinal da primavera vivida pela Igreja com o governo de Francisco? A primeira impressão é que sim.

Contudo, há quem perceba que está ocorrendo um deslocamento de uma teologia social mais para o centro da igreja ao invés de a celebração da vida, das lutas e pautas do Pedro do Araguaia com críticas aos ornamentos estruturais. Parece que se está ocorrendo um processo de alocação de temas da religião progressista no mandato de Francisco, com vias de ocultação ou silenciamento dos antigos embates desta teologia. É o que se vê nas argumentações do atual cardeal presidente da cadeira da Congregação para Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício), Gerhard Muller, quando desloca a teologia da libertação como subserviente a doutrina social da igreja simplificando-a como mera solidariedade, caridade cristã.

O inverso do que elaboraram as teologias sociais, quando em 1950-1960 seus produtores alertavam os truques das estruturas religiosas do uso dos termos e postulados das filosofias da libertação a fim de domesticar em prol do seu leso cristianismo. O inverso do programa preferido quando a partir dos leigos se construiria uma igreja genuinamente do segmento de Cristo, isto é, entre os pobres e desguarnecidos. Horizonte que hoje se torna cada vez mais utópico como quem luta em acreditar que o Araguaia do Pedro possa inundar as ricas túnicas do Odilo corriola escondido entre os cimentos dos prédios da classe média alta de Perdizes, São Paulo.

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Fábio Py Murta de Almeida é Doutorando em Teologia PUC-RJ, bolsista sanduíche pelo PSDE-CAPES no Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS-Paris). Participa do grupo Núcleo de Estudos dos Protestantismos e de suas Teologias (NEPROTES-UFJF/CNPq) e é coordenador do grupo Arte, Filosofia, e Religião no Pensamento Místico Judaico (UEPA/CNPq) e do Centro de Estudos Políticos, Religião e Sociedade (CEPRES-UNIFAP/CNPq)

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